CiberLATAMbywhalemate

Brasil: Open Finance e fraudes com deepfakes

Evertec mostra como Open Finance, Pix e biometria facial abriram novas rotas de fraude no Brasil, e como bancos e reguladores reagem.

Whalemate Labs · Pesquisa assistida por IA3 de ago. de 202638 min de leitura

Evertec Trends colocou em foco uma mudança estrutural no fraude financeiro brasileiro. O avanço do comércio eletrônico, dos pagamentos instantâneos via Pix, da expansão do Open Finance e da integração de serviços por embedded finance não só melhorou a eficiência do sistema, como multiplicou os pontos de contato hoje explorados por grupos criminosos. O novo perfil de ataque combina engenharia social, credenciais comprometidas, abertura de contas em nome de terceiros, fraude sintética, deepfakes para burlar biometria facial, boletos falsificados, manipulação de QR codes e abuso do consentimento do próprio usuário em fluxos que imitam operações legítimas.

A evidência reunida no research indica que o fenômeno deixou de ser marginal. No Brasil, foram registrados mais de 9 milhões de indícios de fraudes financeiras no primeiro semestre de 2026, com o celular como principal canal, Pix presente em 85% dos casos e cerca de 40% dos eventos originados em golpes de engenharia social. Ao mesmo tempo, estudos setoriais e reportagens mostram um ecossistema de defesa em aceleração, com bancos adotando biometria multimodal, detecção de prova de vida, análise comportamental e IA para identificar anomalias, enquanto o Banco Central reforça sua arquitetura regulatória com rejeição compulsória de transações suspeitas, sanções mais duras e controles sobre chaves Pix e contas-bolsão.

O caso brasileiro também funciona como laboratório regional da economia do fraude. O Open Finance já opera em escala de dezenas de bilhões de chamadas mensais de API, e essa superfície ampliada é aproveitada por atacantes que sequestram sessões, simulam consentimento e usam dados reais vazados para ganhar credibilidade. Ao mesmo tempo, os deepfakes deixaram de ser raridade: a ANPD informou que o Brasil concentrou 39% dos casos latino-americanos de 2025 e que os ataques com imagens, vozes e identidades falsas cresceram 126% na comparação anual. Os dados da Polícia Federal, de bancos e de veículos especializados apontam para a mesma direção: o fraude financeiro brasileiro se profissionalizou, se automatizou e passou a se apoiar em IA generativa.

Resumo executivo

Evertec Trends descreveu uma mudança de fundo no fraude financeiro brasileiro. O crescimento do comércio eletrônico, dos pagamentos com cartão, das compras card-not-present, do Pix, dos boletos e da expansão do Open Finance criou mais pontos de contato e, com eles, mais oportunidades para que grupos criminosos explorem vulnerabilidades tecnológicas, engenharia social, roubo de identidade e credenciais comprometidas. Não se trata de um único vetor, mas de uma economia do fraude mais diversificada, mais automatizada e menos dependente de uma plataforma de ataque específica.

O ponto mais sensível do achado é que o crime organizado já não precisa forçar a infraestrutura o tempo todo. Segundo o material consolidado, no Brasil os atacantes induzem cada vez mais a própria vítima a autorizar a operação fraudulenta. Essa dinâmica dificulta a detecção clássica, porque muitas defesas históricas se apoiavam em sinais de transação não consentida. Se o usuário aprova, mesmo enganado, a operação acaba mimetizada dentro do fluxo legítimo.

O Open Finance surge como fator estrutural. Operando em escala de dezenas de bilhões de chamadas mensais de API e convivendo com Pix e embedded finance como infraestrutura compartilhada do mercado, ele amplia a superfície de exposição. Exame e Serasa destacam que o usuário autoriza o compartilhamento de dados sob supervisão regulatória e com respaldo legal, mas também que cada novo ponto de contato aumenta a exposição. A CNN Brasil acrescenta um risco adicional, a venda secundária de dados coletados por terceiros do ecossistema, tema sobre o qual o Banco Central estuda endurecer regras. Em outras palavras, a confiança do modelo depende de controles técnicos e contratuais muito mais rígidos do que os exigidos por uma simples tela de consentimento.

A frente biométrica também mudou. Evertec, Exame, Diário do Nordeste, Metro1, CNN Brasil, IT Section e Itaú Unibanco convergem ao apontar que deepfakes e manipulações de selfie passaram a integrar o arsenal do atacante. O objetivo não é mais apenas roubar senhas. A meta é burlar prova de vida, reconhecimento facial, validação documental e abertura de contas, usando fotos, áudios e vídeos gerados ou adulterados por IA. O material reúne casos de abertura de contas falsas, contratação fraudulenta de empréstimos, golpes de falsa central e uma técnica concreta de injeção em que o fluxo da câmera é interrompido para inserir um vídeo sintético no onboarding.

A resposta do setor financeiro brasileiro é ampla e cada vez mais normativa. O Banco Central reforçou o arcabouço antifraude com rejeição compulsória de transações com indícios de fraude, regras sobre contas-bolsão, exigências para o modelo Banking as a Service e sanções mais duras. Além disso, foram reforçados controles para Pix, incluindo contestação de transações fraudulentas pelos aplicativos, bloqueio de chaves envolvidas, verificação de regularidade de CPF/CNPJ e consistência do nome antes de registrar, alterar ou portar chaves. Tudo isso confirma que o caso brasileiro já não é tratado como uma soma de incidentes, mas como um problema sistêmico de governança de pagamentos e identidade.

O panorama acompanha o crescimento das evidências empíricas. Agência Brasil reportou mais de 9 milhões de indícios de fraude no primeiro semestre de 2026, 78% dos casos vinculados ao celular e 85% com presença de Pix. A Quod atribui cerca de 40% à engenharia social. A ANPD informou que o Brasil concentrou 39% dos casos de deepfake da América Latina em 2025. E estudos setoriais de Fenasbac, GASA, Febraban e Serasa mostram perdas bilionárias e uma curva ascendente de vítimas. O quadro que emerge é claro: a fronteira entre fraude bancária, identidade digital e ciberabuso praticamente desapareceu.

Cronologia de marcos no Brasil2025Bank MasterliquidadoMaio de 2026Novas regrasICP-Brasil2026-07-06BC endureceacesso ao Pix2026-07-18Mais de 9Mfraudes2026-08-02Deepfakessobem 830%
Cronologia de marcos no Brasil — Do aperto regulatório aos casos de deepfake e fraude em Pix e Open Finance.

Contexto e antecedentes

Evertec Trends colocou a discussão em um movimento estrutural do sistema financeiro brasileiro. A expansão dos meios eletrônicos de pagamento ampliou a inclusão financeira e a eficiência das transações, mas também elevou a exposição a fraudes. O crescimento do comércio eletrônico, dos pagamentos presenciais com cartão, das compras online card-not-present, do Pix, dos boletos e do Open Finance abriu novas superfícies de ataque para atores que combinam vulnerabilidades técnicas com manipulação psicológica.

O ponto central do contexto é que a infraestrutura financeira brasileira passou a ser compartilhada. A Evertec sustenta que Open Finance, Pix e embedded finance deixaram de ser iniciativas isoladas para funcionar como uma camada comum do mercado. Isso tem uma consequência direta sobre o fraude. Se os dados circulam entre vários participantes, se os pagamentos são integrados de forma quase invisível à jornada do cliente e se os processos de compliance dependem menos do controle manual, o atacante já não precisa quebrar um sistema único. Basta explorar um ponto fraco na cadeia de consentimento, autenticação ou validação.

A Exame explica que o Open Finance permite ao usuário autorizar o compartilhamento de dados financeiros entre instituições sob supervisão do Banco Central. A Serasa reforça que esse compartilhamento tem respaldo legal e só pode ocorrer com consentimento do titular e para uma finalidade específica, conforme a LGPD. O problema não está no princípio regulatório em si, mas na quantidade de pontos de contato que se multiplicam e que podem ser usados por um atacante para montar abordagens convincentes com dados reais.

A CNN Brasil adicionou um alerta regulatório ao informar que o Banco Central estuda endurecer regras para inibir a venda de dados coletados por empresas que participam do ecossistema Open Finance. A preocupação faz sentido diante do risco de uso secundário das informações compartilhadas. Uma vez que o dado circula, a exposição deixa de depender só do banco de origem e passa a depender de toda a cadeia de participantes, fornecedores e processadores.

Em paralelo, a identidade deixou de ser um atributo apenas documental. A IT Section informou que a Instrução Normativa nº 36 do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação reformulou os requisitos para certificados digitais ICP-Brasil, com inclusão de documentos oficiais, biometria, consultas a bases públicas, listas negativas, dossiê eletrônico com trilha de auditoria e mecanismos contra deepfake e injeção biométrica em validações remotas. A mensagem de fundo é direta: a autenticação documental isolada já não basta em ambientes onde a suplantação visual e o fraude sintético fazem parte do repertório criminal.

Em termos de volume, os dados também são contundentes. A Agência Brasil reportou mais de 9 milhões de indícios de fraude no primeiro semestre de 2026, com o celular como principal canal de ataque. A Quod, citada pelo R7, informou que o Pix esteve presente em 85% dos casos e que a engenharia social respondeu por cerca de 40%. A isso se somam estudos da Fenasbac e da GASA, que estimam mais de 24 milhões de brasileiros vítimas de golpes via Pix e boletos entre julho de 2024 e junho de 2025, com prejuízos próximos de R$ 29 bilhões.

Cobertura regional do relatórioEixo: volume de evidências na pesquisa, não incidência criminal total.BrasilMaior coberturaColômbiaCobertura médiaMéxicoCobertura média
Cobertura regional do relatório — O Brasil concentra o núcleo das evidências; Colômbia e México trazem o contraste comparativo.

Tabela de fatos-chave

Data Fato Fonte Confiança
2026-07-06 Open Finance, Pix e embedded finance são descritos como infraestrutura compartilhada do mercado financeiro, com operação em escala de dezenas de bilhões de chamadas de API mensais. Evertec Trends Confirmada
2026-07-06 O Banco Central estuda restringir o acesso ao Pix de fintechs e bancos com cibersegurança fraca. O Globo Confirmada
2026-07-09 A Exame alerta que o Open Finance aumenta a superfície de exposição por ampliar os pontos de contato com os dados do cliente. Exame Confirmada
2026-07-09 A CNN Brasil aponta preocupação regulatória com a venda secundária de dados obtidos via Open Finance. CNN Brasil Confirmada
2026-07-10 A CSMV informa que a Resolução BCB nº 501/25 impõe rejeição compulsória de transações com suspeita fundada de fraude. CSMV Confirmada
2026-07-14 A PF informa um caso em Montes Claros/MG com invasão de conta GOV.BR, abertura de conta e empréstimo fraudulento. Polícia Federal Confirmada
2026-07-16 PF e Gaeco/BA atuam contra um grupo suspeito de fraudes bancárias e lavagem de dinheiro na Bahia. Polícia Federal Confirmada
2026-07-18 A Agência Brasil reporta mais de 9 milhões de indícios de fraude em seis meses, com 78% de uso de celular e 85% de Pix. Agência Brasil Confirmada
2026-07-18 A Quod atribui cerca de 40% dos casos à engenharia social. R7 / Quod Confirmada
2026-07-20 A Febraban alerta para o golpe da selfie e o abuso do reconhecimento facial. Metro1 Confirmada
2026-07-22 A PF investiga fraude com documentos falsos no Paraná e sequestro de identidade digital em Santa Clorores. Polícia Federal Confirmada
2026-07-23 O BC Protege+ permite registrar restrição gratuita para abertura de novas contas. BoanotíciaBrasil Confirmada
2026-07-24 O Banco Central endurece a segurança do Pix e as sanções; o Itaú alerta para deepfakes e personificação. Banco Central, Itaú Unibanco Confirmada
2026-07-27 A Evertec publica o relatório técnico sobre o novo perfil de ataques no Brasil. Evertec Trends Confirmada
2026-07-27 O Diário do Nordeste descreve deepfakes para simular biometria real e abrir contas falsas. Diário do Nordeste Confirmada
2026-07-28 A IT Section informa novas exigências contra deepfakes e injeção biométrica em certificados digitais. IT Section Confirmada
2026-07-29 A ANPD informa que o Brasil concentrou 39% dos casos de deepfake da América Latina em 2025. Valor Econômico Confirmada
2026-07-31 A FICCO/AL investiga fraudes e peculato em contas sociais da Caixa em Alagoas. Polícia Federal Confirmada
2026-08-02 A Exame reporta que 42,5% das fraudes financeiras registradas em 2025 envolveram IA e que o uso de deepfakes cresceu 830% entre 2024 e 2025. Exame Confirmada

Linha do tempo da operação

Data Evento Ator/vetor Fonte verificada
2025-11 Liquidação do banco Bank Master por graves violações regulatórias. Fraude bancária estruturada, com redes criminosas e milícias Insight Crime
2026-05 Os requisitos de identificação para certificados digitais ICP-Brasil são reformulados com mecanismos anti deepfake. Validação documental e biometria IT Section
2026-07-06 O Banco Central discute restringir o acesso ao Pix para participantes com cibersegurança fraca. Risco sistêmico em pagamentos instantâneos O Globo
2026-07-06 A Evertec descreve Open Finance, Pix e embedded finance como infraestrutura compartilhada. Superfície de ataque por API e consentimento Evertec Trends
2026-07-10 A CSMV detalha o novo arcabouço antifraude, com rejeição compulsória de transações suspeitas. Regras operacionais e de sanção CSMV
2026-07-14 A PF investiga fraude bancária eletrônica com conta GOV.BR invadida e empréstimo fraudulento. Sequestro de identidade digital Polícia Federal
2026-07-16 PF e Gaeco/BA atuam contra uma rede que abria contas falsas e lavava dinheiro. Documentação falsa e abertura de contas Polícia Federal
2026-07-18 São reportados mais de 9 milhões de indícios de fraude em seis meses. Celular, Pix e engenharia social Agência Brasil, Quod
2026-07-20 A Febraban alerta para o golpe da selfie e o uso de selfies para autorizar operações. Reconhecimento facial abusado Metro1
2026-07-23 O BC Protege+ entra no centro do controle preventivo de abertura de contas. Restrição voluntária do titular BoanotíciaBrasil
2026-07-24 O Itaú alerta para deepfakes, falsa central e manipulação emocional; o BC reforça o Pix. Engenharia social com IA Itaú Unibanco, Banco Central
2026-07-27 A Evertec publica o relatório técnico base desta investigação. Novo perfil de ataques no Brasil Evertec Trends
2026-07-27 O Diário do Nordeste documenta deepfakes para simular biometria real e abrir contas falsas. Onboarding fraudulento Diário do Nordeste
2026-07-29 A ANPD informa que o Brasil concentrou 39% dos deepfakes da região em 2025. IA generativa aplicada ao fraude Valor Econômico
2026-07-31 A FICCO/AL investiga fraudes em contas sociais da Caixa em Alagoas. Desvio sistêmico em benefícios Polícia Federal
2026-08-02 A Exame estima que 42,5% das fraudes financeiras de 2025 já envolveram IA. Deepfakes e prova de vida Exame

Cadeia de ataque e TTPs

O padrão observado no material é compatível com uma cadeia de ataque modular. O primeiro passo costuma ser o acesso inicial por engenharia social, phishing, smishing, vishing ou abordagens presenciais. No Brasil, a Exame observa que muitos golpes de Open Finance usam dados reais como nome, CPF, endereço e histórico de compras para tornar mais críveis os pedidos de consentimento. Essa etapa inicial não busca uma intrusão técnica complexa, mas sim obter uma ação do usuário, um código, uma aprovação ou uma abertura de sessão.

Depois vem a fase de suplantação ou abuso de contas válidas. A MITRE define a técnica Valid Accounts como o uso de credenciais legítimas comprometidas para acessar sistemas. No corpus brasileiro, isso se traduz em invasão de contas, sequestro de identidades digitais, acesso ao GOV.BR, reutilização de credenciais e abertura de produtos financeiros em nome da vítima. A operação pode continuar com alteração de contatos, desvio de autenticadores, portabilidade de chaves Pix ou abertura de contas laranja para movimentar o dinheiro.

O segundo grande bloco é a evasão de controles biométricos. Diário do Nordeste, Metro1, CNN Brasil, Itaú Unibanco e IT Section descrevem deepfakes, selfies manipuladas, vídeos sintéticos e técnicas de injeção para burlar prova de vida e reconhecimento facial. A ideia não é apenas parecer real, mas produzir uma sinalização aceitável para o sistema automatizado. O Correio 24 Horas chegou a reportar um caso na Bahia em que fotos de rostos de idosos foram usadas para driblar o reconhecimento facial em apps bancários e contratar empréstimos.

Nesse ponto, a técnica Masquerading da MITRE se encaixa com precisão. O atacante usa identidades e aparências falsas para contornar defesas. A falsificação pode ser documental, biométrica ou de contexto. Em vários reportes também aparece a combinação de foto, áudio e vídeo, o que sugere campanhas que cruzam credenciais, suplantação audiovisual e manipulação do fluxo de onboarding.

O terceiro bloco é a monetização. Surgem transferências por Pix, contratação fraudulenta de empréstimos, movimentos para contas de terceiros, esvaziamento de contas e uso de boletos falsificados. A investigação da Agência Brasil e da Quod mostra que o Pix foi o canal predominante. O caso da Operação Infiltrados, com cerca de R$ 45 milhões desviados, e a prisão de um funcionário suspeito de desviar cerca de R$ 2 milhões, mostram que a monetização pode se apoiar tanto em canais automatizados quanto em abuso interno.

A persistência costuma ser completada com lavagem e fragmentação. A Evertec descreve organizações criminosas com divisão de funções entre engenharia social, malware, lavagem de dinheiro, abertura de contas laranja, falsificação de documentos e tráfico de dados. Isso importa porque ajuda a explicar por que os ataques já não parecem atos isolados, mas serviços especializados. O modelo Fraud as a Service reduz a barreira de entrada para grupos menores e profissionaliza a operação.

Cadeia de ataque observadaAcesso inicialphishingsmishing e vishingSuplantaçãocredenciaiscontas válidasBiometriadeepfakedetecção de vivacidadeMonetizaçãoPixempréstimosA evidência do corpus mostra ataques que combinam consentimento induzido, deepfakes e movimentações rápidas de dinheiro.
Cadeia de ataque observada — Consentimento induzido, falsificação biométrica e monetização por pagamentos instantâneos ou crédito.
TTP MITRE Descrição Fonte
TA0001 Initial Access Acesso inicial por phishing, smishing, vishing ou abordagens que buscam consentimento ou credenciais. MITRE, Exame, Semana, Pulzo
T1078 Valid Accounts Uso de contas legítimas comprometidas para operar em bancos, Pix ou Open Finance. MITRE, Polícia Federal, R7
T1036 Masquerading Uso de identidades falsas, deepfakes e suplantação para contornar controles. MITRE, CNN Brasil, Diário do Nordeste, IT Section
Persistência operacional Divisão de trabalho entre engenharia social, lavagem, falsificação e contas laranja. Evertec Trends
Evasão biométrica Manipulação de selfies, vídeos, prova de vida e liveness. Diário do Nordeste, Metro1, IT Section, Correio 24 Horas
Exfiltração e monetização Transferência de fundos via Pix, empréstimos fraudulentos e contas de terceiros. Agência Brasil, Polícia Federal, O Globo

Impacto regional

Panorama regional

O caso brasileiro tem valor de referência para o restante da América Latina porque combina três elementos que nem sempre aparecem juntos. Primeiro, uma infraestrutura de pagamentos e dados altamente integrada, com Open Finance, Pix e fintechs interconectadas. Segundo, uso crescente de IA generativa para fraude de identidade, deepfakes e personificação. Terceiro, uma resposta regulatória que avança rápido, mas ainda depende de coordenação em tempo real entre bancos, fornecedores e autoridades.

A relação entre identidade e fraude deixou de ser um tema puramente documental. Os relatórios citados mostram que a indústria começou a tratar biometria facial, prova de vida e consentimento digital como superfícies atacáveis. Em paralelo, o crime organizado trabalha com acesso a dados vazados, engenharia social direcionada e sequestro de sessão. Essa combinação se repete, com variações, em vários países da região, embora o Brasil concentre a maior profundidade do material reunido.

Brasil

O Brasil é o centro do relatório. Evertec Trends, Exame, Agência Brasil, Quod, CNN Brasil, Serasa, O Globo, IT Section, Itaú Unibanco, Metro1, Diário do Nordeste, Polícia Federal, Banco Central e ANPD compõem um quadro consistente. O fraude se deslocou do uso indevido de cartões e boletos para um ambiente em que o atacante explora Open Finance, Pix, identidade digital e biometria facial.

Os números são expressivos. Mais de 9 milhões de indícios de fraude no primeiro semestre de 2026, 78% via celular, 85% com Pix e cerca de 40% originados em engenharia social. A isso se somam mais de 24 milhões de vítimas estimadas pela Fenasbac e pela GASA entre julho de 2024 e junho de 2025, quase R$ 29 bilhões em prejuízos e crescimento de 43% nas perdas via Pix em relação a 2023. A ANPD, por sua vez, situou o Brasil com 39% dos casos de deepfake da América Latina em 2025 e alta de 126% na comparação anual em ataques com imagens, vozes e identidades falsas.

A frente operacional reflete essa escala. O material inclui fraudes em contas sociais da Caixa, abertura de contas falsas, empréstimos fraudulentos, desvios em contas de beneficiários, abuso interno por parte de funcionários de banco e um caso de grande fraude histórica, o Bank Master, que a Insight Crime relaciona a redes criminosas e milícias. A leitura combinada é que o fraude financeiro brasileiro deixou de depender apenas do perímetro digital clássico e passou a penetrar a cadeia de confiança que sustenta o sistema de pagamentos.

Colômbia

A Colômbia aparece com uma agenda regulatória e preventiva mais visível no material. A Lei 2573 de 2026, segundo El País, suspende cobranças e apaga temporariamente registros negativos por suplantação de identidade a partir de novembro de 2026. A Superintendência Financeira criou um espaço específico para orientar a população sobre phishing, smishing, vishing, suplantação de identidade e fraude amigável, com recomendações de reporte imediato, inativação de produtos e denúncia à polícia e à Promotoria.

O risco prático, porém, já mostra sinais semelhantes aos do Brasil. A TintaTIC descreve mais de 218 mil reclamações por suplantação de identidade e destaca a abertura de contas digitais com dados roubados e a criação de cadastros adulterados. A Semana alerta para e-mails, vozes e vídeos deepfake que imitam bancos ou pessoas de confiança. A Pulzo chamou atenção para o smishing ligado ao lançamento do Bre-B, com mensagens falsas que pedem senhas, códigos e até biometria. Já o BBVA Colômbia recomenda ativar autenticação biométrica e verificar, pela app oficial, notificações suspeitas.

O bloco de casos também é robusto. O Espacio Digital reportou um falso assessor bancário em Bogotá que obtinha dados para fraude com cartões de crédito. A FM descreveu um golpe em carteiras digitais que usa identidades suplantadas e transferências "por erro" para lançar dívidas na vítima. Creditolab e Juan Antonio Matiz reuniram passos de resposta, como denunciar à Promotoria, contatar o banco, bloquear cartões, revisar relatórios de crédito e agir em caso de possível SIM swapping. No conjunto, o país mostra uma combinação de controles regulatórios, educação do usuário e alertas contra suplantação e fraude de onboarding.

México

O México apresenta um padrão técnico paralelo, embora com menos detalhe regulatório no material. A Condusef reportou 43.871 reclamações por tentativas de fraude financeira no primeiro semestre de 2026, alta de 16,7% na comparação anual, e 118.287 registros totais, 11,3% acima do ano anterior. A Shufti Pro afirma que o país enfrenta account takeover, manipulação de pagamentos por SPEI, engenharia social e lavagem vinculada a cartéis, o que sugere convergência entre fraude financeira e cibercrime organizado.

Juan Guevara, citado pela Imagen Radio, descreveu uma técnica de injeção em processos de abertura de contas por aplicativo. O atacante interrompe a câmera e substitui o sinal por um vídeo falso gerado por IA para enganar o sistema de selfie ou vídeo. O mesmo corpus menciona uma forte alta da fraude em abertura de contas digitais e do account takeover, embora esses percentuais apareçam atribuídos pelas fontes e não devam ser tratados como série oficial consolidada neste relatório.

O Banorte respondeu com uma estratégia de dupla segurança baseada em verificação de linhas telefônicas com operadoras e biometria comportamental que analisa geolocalização, uso do dispositivo e outros padrões. A Xataka México acrescenta que a CNBV aprovou mudanças para permitir identificação com documentos oficiais, impressões digitais e reconhecimento facial, especialmente em contas nível 3 e 4, e que depósitos ou saques em dinheiro acima de 140.000 pesos devem ser comprovados com biometria. A MITRE se encaixa bem no quadro mexicano, porque o material reflete acesso inicial por engenharia social, uso de contas válidas comprometidas e masquerading com deepfakes ou identidades sintéticas.

Indicadores técnicos

O material consolidado não trouxe IOCs técnicos clássicos, como hashes, IPs, domínios, URLs de infraestrutura criminosa ou artefatos de malware. O corpus, porém, traz indicadores operacionais e de contexto que ajudam a perfilar as campanhas.

Tipo Valor Fonte
TTP Engenharia social para induzir consentimento Evertec Trends, Agência Brasil, Exame
TTP Pix presente em 85% dos casos Agência Brasil, Quod
TTP Celular como principal canal, 78% dos registros Agência Brasil, Quod
TTP Deepfakes para burlar biometria facial e prova de vida Exame, Diário do Nordeste, CNN Brasil, IT Section
TTP Ataque de injeção no onboarding por app Imagen Radio
TTP Rejeição compulsória de transações com suspeita fundada CSMV
Controle preventivo BC Protege+ para impedir abertura não autorizada de contas BoanotíciaBrasil
Controle preventivo Verificação de CPF/CNPJ e consistência do nome em chaves Pix CSMV
Controle preventivo Biometria multimodal e liveness 3D CNN Brasil, ClickPetroleo e Gás / Exame
Matriz de TTPsTA0001Acesso inicialPhishing, smishing, vishing, consentimento induzidoT1078Contas válidasContas comprometidas, account takeover, GOV.BRT1036DisfarceDeepfakes, selfies manipuladas, identidade sintética
Matriz de TTPs — MITRE ajuda a organizar a fraude financeira quando a identidade vira a primeira camada de ataque.

Análise para equipes de segurança

A principal lição operacional é que a defesa já não pode depender de uma única camada. No Brasil, o atacante combina consentimento induzido, comprometimento de credenciais, manipulação biométrica e monetização rápida via Pix ou crédito. Isso obriga a detecção a sair do evento isolado e acompanhar a sequência completa de comportamento.

Para times antifraude, o primeiro foco deve ser o fluxo de consentimento. Se o Open Finance se apoia em autorizações válidas do usuário, a telemetria precisa detectar desvios na experiência de cadastro, sequestro de sessão, mudanças bruscas de dispositivo, horários atípicos, origem de rede incomum e reutilização de dados reais vazados para disparar solicitações. O material sugere que muitos ataques não são percebidos porque a operação parece autorizada. É preciso observar a qualidade do consentimento, não só sua existência.

O segundo foco é a biometria. A combinação de selfie, vídeo e prova de vida exige controles contra injeção, deepfakes e manipulação documental. A IT Section detalha que, em validações remotas, já são exigidos mecanismos específicos contra deepfake e injeção biométrica. Na prática, a validação de identidade não deveria depender apenas de uma imagem frontal, mas de biometria multimodal, sinais de liveness, comparação com bases confiáveis e análise contextual. A CNN Brasil e a ClickPetroleo e Gás / Exame citam o uso de biometria multimodal e liveness 3D como resposta justamente para evitar que um rosto sintético passe por real.

O terceiro foco está nos pagamentos instantâneos. O Banco Central já endureceu regras, mas a capacidade do atacante de movimentar dinheiro com velocidade segue sendo o risco central. Por isso, a verificação prévia de CPF/CNPJ, nome do titular e comportamento transacional precisa ser integrada antes de habilitar chaves Pix, portar chaves ou aceitar transações em contas com suspeita fundada. A Resolução BCB nº 501/25 e normas relacionadas mostram que o regulador está empurrando a detecção para o momento anterior ou imediatamente posterior à autorização, e não só para o chargeback.

O quarto foco é o fraude organizado. A Evertec descreve uma estrutura com especialistas separados por função. Isso obriga a pensar a defesa como um problema de cadeia de suprimento criminosa. Não basta bloquear o usuário enganado. Também é necessário identificar redes de contas laranja, dispositivos reutilizados, padrões de afiliação entre contas, uso repetido de identidades sintéticas, senhas recicladas e comportamento de funis coordenados. O objetivo é quebrar a economia de escala do fraude, e não apenas reagir caso a caso.

Em termos de priorização, os times deveriam tratar como alta prioridade três cenários concretos. Primeiro, onboarding remoto com selfie ou vídeo. Segundo, autorização de consentimento ou de chaves Pix a partir de dispositivos novos ou sessões sequestradas. Terceiro, pedidos de empréstimo ou abertura de conta com dados reais vazados e sinais de engenharia social. Nesses casos, a fricção adicional, como challenge step-up, verificação por segundo canal, revisão humana ou suspensão temporária, parece justificável diante do nível de risco mostrado pelo material.

Também vale cruzar fraude e cibersegurança de forma mais estreita. A MITRE ajuda a organizar a análise. Initial Access cobre o acesso inicial por phishing ou smishing. Valid Accounts explica o uso de credenciais legítimas comprometidas. Masquerading reflete deepfakes e suplantação visual. Essa taxonomia, aplicada ao fraude bancário, permite compartilhar linguagem entre equipes antifraude, SOC, IAM, risco e compliance.

Limitações do material

O material não traz indicadores técnicos exploráveis de infraestrutura criminosa, como IPs, hashes, domínios ou amostras de malware. Também não reúne um único caso investigado do início ao fim, com cadeia completa confirmada desde o acesso inicial até a monetização. O que está disponível é uma combinação robusta de relatórios técnicos, regulatórios, judiciais e jornalísticos que permite reconstruir padrões, mas não atribuir com certeza uma campanha unificada.

Vários números aparecem atribuídos pelas próprias fontes e não por documentos primários acessíveis no corpus. Esse é o caso de alguns percentuais reportados por veículos sobre crescimento de deepfakes, account takeover ou abertura de contas digitais. Neste relatório, essa incerteza foi preservada quando necessário.

A cobertura geográfica é desigual. O Brasil concentra a maior parte do material verificável e, por isso, estrutura a análise principal. Colômbia e México oferecem fatos suficientes para uma leitura comparada. Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Estados Unidos e Uruguai não trouxeram fatos verificáveis adicionais dentro do research consolidado, então não aparecem como subseções separadas.

Limitações do corpusSem IOCs clássicosMuitas cifras vêm de fontes secundáriasO Brasil concentra as evidências; outros países têm cobertura parcial
Limitações do corpus — O material permite traçar padrões, mas não traz artefatos técnicos de infraestrutura criminosa.

Fontes

Ver todas